Relações de trabalho nas estâncias da Campanha sul-rio-grandense : culturas e resistências dos gaúchos no capitalismo pastor (1919-1939)
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Data
2025Orientador
Nível acadêmico
Doutorado
Tipo
Assunto
Resumo
A presente tese aborda a história dos trabalhadores rurais da pecuária extensiva, na região da Campanha, no Rio Grande do Sul, chamados de peões campeiros (gaúchos), no período do entreguerras (1919-1939). No final do século XIX e início do século XX, a produção agropecuária daquele espaço passou por um processo de mudanças que a historiografia especializada chama de modernização, com a implementação do capitalismo pastor. A presente pesquisa procura explicar como se deu o processo de disciplin ...
A presente tese aborda a história dos trabalhadores rurais da pecuária extensiva, na região da Campanha, no Rio Grande do Sul, chamados de peões campeiros (gaúchos), no período do entreguerras (1919-1939). No final do século XIX e início do século XX, a produção agropecuária daquele espaço passou por um processo de mudanças que a historiografia especializada chama de modernização, com a implementação do capitalismo pastor. A presente pesquisa procura explicar como se deu o processo de disciplinamento dos peões campeiros, nas estâncias, e como eles reagiram. Para responder esse questionamento foi preciso conhecer as estruturas de produção e a inversão de capital (inovação e objetos técnicos), as formas de saber e fazeres (manejos e sistemas técnicos) e as relações de trabalho nos grandes estabelecimentos agropecuários. As fontes desta pesquisa são a literatura, fotografias, registros oficiais (relatórios dos governos), revistas e bibliografia especializada da época, folclore, registros contábeis de estâncias e os Livros dos Relatórios (Diários do Capataz) da Estância do Boqueirão. Utilizei métodos e técnicas qualitativos, quantitativos e interdisciplinares, com observação documental e análise de conteúdo e de discurso. Procurei, assim, mobilizar conceitos que dessem conta de explicar os fenômenos analisados dentro de seu contexto, tais como capitalismo pastor, estância moderna, relações de trabalho, trabalhadores subalternos, cultura e disciplinamento. Uma minoria (elite) dos pecuaristas optou pela estratégia do capitalismo pastor e investiu na inversão de capital com inovação tecnológica. No período em análise (1919-1939) ocorreu a apropriação e difusão das tecnologias de produção de novilhos com carne de melhor qualidade e mais peso, em menos tempo. Eu chamo o período de Tempo da Mestiçagem. As novas tecnologias necessitavam mudanças no modo de produzir a mercadoria “boi". Foi necessário o disciplinamento da mão-de-obra dos peões campeiros. Os novos objetos técnicos e sistemas técnicos foram apropriados e adaptados pela cultura regional, que resistiu, inclusive em alguns aspectos das relações de trabalho. Do encontro das novas orientações com os costumes, surgiu uma terceira cultura que estou chamando de Lides Gauchescas ou Trabalho Gauchesco. Desse processo de disciplinamento dos peões campeiros, com objetivo de formá-los dóceis e eficientes, emergiu um trabalhador mal disciplinado (não indisciplinado). No Tempo da Mestiçagem, o peão campeiro (o gaúcho) resistiu ao capitalismo pastor através do Trabalho Gauchesco. ...
Abstract
This thesis examines the history of rural laborers involved in extensive livestock farming in the Campanha region of Rio Grande do Sul—known as peões campeiros (gaúchos)—during the interwar period (1919–1939). In the late 19th and early 20th centuries, agricultural production in this region underwent a transformation that specialized historiography identifies as modernization, marked by the implementation of pastoral capitalism. The research investigates how the disciplining of peões campeiros ...
This thesis examines the history of rural laborers involved in extensive livestock farming in the Campanha region of Rio Grande do Sul—known as peões campeiros (gaúchos)—during the interwar period (1919–1939). In the late 19th and early 20th centuries, agricultural production in this region underwent a transformation that specialized historiography identifies as modernization, marked by the implementation of pastoral capitalism. The research investigates how the disciplining of peões campeiros on large ranches unfolded and how these workers responded to it. To address this question, the study analyzes the structures of production and capital investment (including innovation and technical artifacts), forms of knowledge and practice (management and technical systems), and labor relations in large rural enterprises. The source base includes literary works, photographs, official records (government reports), periodicals and specialized bibliography, folklore, ranch accounting books, and the Report Books (Foreman’s Diaries) from Boqueirão Ranch. The methodological approach combines qualitative, quantitative, and interdisciplinary strategies, including documentary observation, as well as content and discourse analysis. Key concepts mobilized include pastoral capitalism, modern ranches, labor relations, subordinate labor, culture, and discipline. A minority elite of large-scale ranchers adopted the pastoral capitalist model, investing in technological innovation. Between 1919 and 1939, techniques emerged and spread for producing steers with higher-quality meat and greater weight in a shorter timeframe—a period I define as the Time of Miscegenation. These innovations demanded changes in beef production processes and required new forms of labor discipline. However, these technical systems and artifacts were appropriated and reshaped by regional cultural practices, which displayed forms of resistance—particularly in labor relations. From the encounter between modernizing mandates and local customs, a hybrid culture emerged, which I term Lides Gauchescas (“Gauchesque Labor”). As ranch owners sought to create docile and efficient workers, the outcome was a workforce that was poorly disciplined—not entirely undisciplined. During the Time of Miscegenation, the peões campeiros resisted the imposition of pastoral capitalism through the practice of Gauchesque Labor. ...
Resumen
Esta tesis examina la historia de los trabajadores rurales involucrados en la ganadería extensiva en la región de Campanha de Rio Grande do Sul, conocidos como peões campeiros (gaúchos), durante el período de entreguerras (1919-1939). A finales del siglo XIX y principios del XX, la producción agrícola en esa región experimentó un proceso de cambio que la historiografía especializada llama modernización, con la implementación del capitalismo pastoril. Esta investigación busca explicar cómo se de ...
Esta tesis examina la historia de los trabajadores rurales involucrados en la ganadería extensiva en la región de Campanha de Rio Grande do Sul, conocidos como peões campeiros (gaúchos), durante el período de entreguerras (1919-1939). A finales del siglo XIX y principios del XX, la producción agrícola en esa región experimentó un proceso de cambio que la historiografía especializada llama modernización, con la implementación del capitalismo pastoril. Esta investigación busca explicar cómo se desarrolló el proceso de disciplinamiento de los peões campeiros (agricultores rurales) en las haciendas y cómo respondieron. Para responder a esta pregunta, fue necesario comprender las estructuras de producción y la inversión de capital (innovación y objetos técnicos), las formas de conocimiento y práctica (sistemas de gestión y técnicos) y las relaciones laborales en los grandes establecimientos agrícolas. Las fuentes de esta investigación son literatura, fotografías, registros oficiales (informes gubernamentales), publicaciones periódicas y bibliografía especializada de la época, folclore, registros contables de la hacienda y los Libros de Informes (Diarios de Capataces) de la Hacienda Boqueirão. Utilicé métodos y técnicas cualitativos, cuantitativos e interdisciplinarios, incluyendo la observación documental y el análisis de contenido y discurso. De este modo, busqué movilizar conceptos que pudieran explicar los fenómenos analizados en su contexto, como el capitalismo pastoril, las haciendas modernas, las relaciones laborales, los trabajadores subordinados, la cultura y la disciplina. Una minoría (la élite) de grandes ganaderos optó por la estrategia del capitalismo pastoril e invirtió en capital mediante la innovación tecnológica. Durante el período analizado (1919-1939), se adoptaron y difundieron tecnologías para producir novillos con carne de mejor calidad y mayor peso en menos tiempo. Denomino a este período la «Época del Mestizaje». Las nuevas tecnologías exigieron cambios en la forma de producir la "carne de res". Disciplinar el trabajo de los campesinos era necesario. Los nuevos objetos y sistemas técnicos fueron apropiados y adaptados por la cultura regional, que se resistía, incluso en algunos aspectos de las relaciones laborales. De la intersección de estas nuevas directrices y costumbres surgió una tercera cultura, a la que llamo "Lides Gauchescas" o "Trabajo Gauchesco". De este proceso de disciplinar a los campesinos, con el objetivo de formar campesinos dóciles y eficientes, surgió un trabajador poco disciplinado (no indisciplinado). Durante la Era del Mestizaje, los campesinos (el gaucho) resistieron al capitalismo pastoril mediante el Trabajo Gauchesco. ...
Instituição
Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Instituto de Filosofia e Ciências Humanas. Programa de Pós-Graduação em História.
Coleções
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